domingo, 19 de abril de 2009

VivoFobia

Suspirou. O vento que soprava do norte carregava lembranças e sentimentos. O cheiro que anunciava uma chuva remetia a pensamentos muito antigos e fortemente ligados à infância. Suspirou de novo e sentiu o peso da idade que ousava agora avançar feroz rumo ao conhecido destino de qualquer ser vivente, a desconhecida morte.

Estava ela em frente a sua casa. A imagem que vinha à mente era de um ser esquálido com uma grande foice na mão. Um manto negro encobria seu rosto exagerando ainda mais suas características fúnebres. Respirou aliviado por se tratar de um mero pensamento, mas mesmo assim não atendia mais a porta. Questão de segurança.

Deixou de fazer tantas coisas. Tudo na prioridade de manter-se vivo. "Sair de casa?" - questionou. "Peste bubônica, câncer, pneumonia", fazia rima, era música e acima de tudo verdade. Notícias de televisão, jornal e rádio. Seus termômetros sociais indicavam: tenha medo. Até o algodão-doce vendido na praça fora vitimado por sua insegurança. Vai saber o que colocam naquela coisa rosada.

Preocupações dominavam seu corpo. O desespero fez do controle remoto seu melhor amigo. Recorreu ao vício do cigarro como tentativa de fuga. Não se levantou da velha poltrona de couro. Não sorriu mais. Não falou mais. O não passou a ser obrigatório em sua existência. A respiração acontecia por se tratar de um fenômeno fisiológico involuntário, se controlasse com certeza não respiraria também.

Não sabe o porquê, mas como num clarão veio à mente sentimentos nostálgicos agredindo cada milímetro de seu corpo. Levantou e caminhou em direção à janela movido pela sensação saudosista, de coisa boa vivida. A prostração cedeu ao novo e a energia inusitada. Ao abrir a janela percebeu um leve arco-íris convidando-o a mergulhar em suas memórias.

Lembrou de quando era uma criança. Os dedos pequeninos sujos de terra roçavam a barriga d'água sem preocupações. O mundo parecia maior do que ele realmente era. Árvores tornavam-se casas. Montes de areias ganhavam a dimensão de desertos a serem conquistados. A imagem da mãe marcava: hora do banho! Fugia com um sorriso que cortava as orelhas.

Viu que há muito tempo fugia também dos problemas. A ingenuidade e o sonho infantil libertara-o da escravidão paranóica que o enclausurara. Aquele olhar fez da mesmice algo diferente. Sentiu que não pertencia àquele espaço de reclusão. Com um simples otimismo transformou o seu pesadelo na melhor e a mais reconfortante das paisagens. Surpreso sentia a necessidade de querer mais.

Não era mais criança, mas percebeu que o sentimento resistiu aos sinais do tempo. Apenas se distraiu cedendo espaço aos devaneios e paranóias da vida moderna. Coisas que nunca foram realmente necessárias. Pecou pelo excesso de preocupações e com isso morreu aos poucos. Descobriu-se árduo algoz de seu céu e inferno. Suspirou novamente. Morreu.

2 comentários:

Thais disse...

Palmaaaaaaaaas!!!!!! =D
Muitas palmas!

.. e que o medo na vida não pare ningém! e sempre sentindo a necessidade de necessidade 'querer mais.'

gyn disse...

Quantas fobias escondidas. Quantas fobias perdidas na madrugada.
Pirei adorei o seu texto...