quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Razão Pura: anseios e devaneios

Era noite. O súbito toque do relógio anunciava que o atraso se fazia necessário, o que tornava mais doce a expectativa acumulada. Sentado na calçada, admirava o lento passar do tempo, com todas suas medidas e medições. Oito e meia? não, não... já passavam das nove horas quando ela apareceu.

Súbito, o sorriso embrigava-o levando a trafegar por linhas curvilíneas bem traçadas. Parecia despontar a beira de um precipício, causando a leve sensação de liberdade e temor sugestionadas pela adrenalina bombardeada em cada vaso, veia e artéria de seu corpo. As mãos se encontraram... o berço esplêndido se fez naquele abraço, a tão esperado.

O "oi" tímido, sussurrado ao pé do ouvido, entrelaçava todas as falhas temporais criadas pelo acaso do destino. Duas vidas que se resumiram ali, no instante em que os olhos se puseram a postos observando cada gesto, sentido, cheiro e desejo. Queriam mais. Mesmo não se conhecendo. Queriam tudo.

Rapidamente os lábios firmes começaram a percorrer primeiro o pescoço, depois ombro e por fim orelha. Procuravam uma brecha, onde pudessem explorar a efemeridade dos sexos tentando sugar aquilo que lhes davam mais prazer. Ao redor, silêncio. Somente o som estalado dos beijos podia ser ouvidos naquele dia estrelado.

Parecia não mais acabar. Tentavam provar que o ser humano é movido justamente por ações egoístas e desejo de posse. Uma mistura de bobagens que leiam-se nos livros fadados a não cumprirem sua missão. Dialogar. Enquanto os corpos se fundiam em chamas nostálgicas, ele o mais tímido, sentia cheiro de orvalho, que por ventura anunciava o amanhecer do dia.

Reviravam-se, abraçavam-se... desejava de novo que não tivesse mais fim ou para onde ir. Com a luz do dia, a imagem daquela, perfeita, se desfazia aos poucos da mesma forma que se destroem castelos de areia em dias chuvosos. Acordou com o barulho da janela batendo por causa do vento. Suspirou e percebeu que havia caído no sono logo após vários dias acordado.

Mesmo com seus oitenta anos de vida, nunca havia sentido coisa tão real e lúcida como esse sonho. Da mesma forma que os relógios ingleses, marcou-lhe exatamente o peso do tempo e da idade que lhe foi dada. Então debrussado sobre a velha pilha de livros, pode viver, mesmo que num abstrato momento a possibilidade de tocar o infinito, que por ironia do destino, se chamava Virgindade.

Morria, aos 80 anos, Immanuel Kant.
Kaliningrado, 1804.

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Um comentário:

Marília disse...

'O "oi" tímido, sussurrado ao pé do ouvido, entrelaçava todas as falhas temporais criadas pelo acaso do destino. Duas vidas que se resumiram ali, no instante em que os olhos se puseram a postos observando cada gesto, sentido, cheiro e desejo. Queriam mais. Mesmo não se conhecendo. Queriam tudo.'


que lindo isso.. ;~~