segunda-feira, 27 de julho de 2009

E foi assim que começou

O dia estava bastante quente. Sem o uso da hipérbole, arriscaria dizer que era o verdadeiro estágio para o inferno. Sentia um pouco da tristeza parasitária que ora ousava me encontrar desapercebido e... pimba, meu desânimo aumentava em progressão aritmética. Parecia que era mais um daqueles dias que duram anos.

O almoço estava servido. O cardápio: "azeitona preta, macarrão, ervilha, carne (não identificada e sem cabelo) mal-passada e restos da polenta de ontem". Era isso que eu remexia no prato e me embrulhava o estômago. Claro, outras coisas também incomodavam meus pensamentos, além do almoço. Uma música do Pepe Moreno e a grande dúvida. A resposta da Marcinha (o nome é bem fictício) para meu convite.

Uma invitação nada pretensiosa. Propus: passear no zoológico; algodão-doce; almoço; parque com sorvete; cinema e o grande final... chocolate. Pronto, era isso. Exatamente nessa ordem. A resposta veio rápida, até mais do que esperava. Um "sim" bem mineiro, desconfiado. Isso não me inspirou de forma alguma.

A verdade é que antes mesmo das ervilhas acabarem já sabia que minha auto-estima tinha desaparecido. Eis que me senta a mesa Dorfus. Amigo de fé, irmão camarada (ainda diria o grande poeta). Tratei de buscar toda sabedoria dele, pessoa experiente com as mulheres da cidade. Uma espécie de conselheiro amoroso. Estava tão cego por uma luz do amado guru que não reparei a moça que o acompanhava.

Explicação vai, lamúrias vem. Cada detalhe do meu tão sofrido convite era dramaticamente expresso em frases demasiadamente longas. Amigo é amigo, e por isso toda paciência do mundo era pouca. Alguns minutos a mais e eis que entra na conversa a moça:

" Escuta aqui menino"

Firmava aquela mulher morena, de olhos grandes e cabelos compridos. Certa postura assustou-me confesso, cortara a conversa como se tivesse capinando um lote a enxadadas. Disse-me apressada:

"Seguinte, se a menina aceitou é que você tem 77,35% de chances de ficar com ela. Se ela não quisesse ela poderia convidar outra pessoa para sair com vocês ou até mesmo recusar o convite. Pode até ser que vocês não venham a ficar na primeira vez, mas com certeza ela quer te conhecer melhor."

Ráááááá - palavras de meu grande e admirado Sérgio Mallandro. Com ênfase matemática me deixou boquiaberto aquela mulher. Pensei um tanto quanto confuso em quem essa menina seria. Faltaram-me palavras, a não ser para deixar Dorfus seguir com aquele par de grandes olhos penetrantes.

Pensava eu com meus botões e ervilhas que sobraram no prato. "Quero conhecer essa mulher. Quero mesmo conhecer essa mulher". Meu próximo passo era assim procurar Dorfus e saber um pouco mais sobre ela.

continua...

1º texto da série Diário de Morango