quinta-feira, 26 de julho de 2012

Campos de Morango


Ao meu alguém, ao meu morango...

Todas as minhas cores, sabores, desejos e afetos. É com a premissa de sermos feitos para o Universo, assim como somos feitos e defeitos um para o outro, que arrisco marcar para sempre esse momento. Tudo que foi feito e será dito, a partir de agora, ecoará em nossas almas assim como já ecoa em nossos corações. Se o que existe entre nós não fosse realmente sincero, não estaríamos aqui, olhando um para o outro, depois de termos vivido por mais de um dia na saudosa kitnet de dois metros quadrados no Itatiaia. Um espaço que caberiam três pessoas se a chave da porta não estivesse do lado de dentro da casa. Entretanto, essa experiência de sermos zipados teve sua importância. Mais do que um lugar pequeno, foi uma prova de amor, companheirismo e paciência.

O uso das palavras é mera tentativa de rotular vários sentimentos que considero estarem acima dos mecanismos da linguagem. Mas eu não devo ser injusto. Sei que foram as mesóclises intencionalmente empregadas e as metáforas intimamente utilizadas  que te apeteceram. E quem diria que o REFICOFAGE, um macete de escola, que me ajudou a passar em biologia, me ajudaria também a passar pelas portas do seu coração? Como diriam as minhas “brimas”: Maktub, estava escrito.

Eu assumo meus temores e tremores. Que ao fazer uma declaração de peito aberto e  coração sincero, me revelo eternamente brega. De um jeito bobo e apaixonado. Como se me tomassem de assalto os mesmos sentimentos em nossa primeira vez. Estômago embrulhado, voz embargada e olhos marejados. Seus cabelos ao vento e eu todo suado. E ainda dizem os incautos que o amor não é sintomático. Como eu não sofria com piriri tive a certeza. Estava eu no passado, como estou agora, acometido por aquilo que não se nomeia, mas se vive e se faz. Acho que isso, meu bem, é amor.

E foi assim que descobri: a minha língua falava à sua língua. Senti, no toque dos meus dedos em seus lábios. Vivi, na imagem de seus olhos fechados. Morri, nos entremeios dos seus cabelos embaraçados. O som dos corações acelerados expurgavam o barulho e os murmúrios de bêbados inveterados.  E por um instante, a paixão fez-se em silêncio. Ah, Joaquim! Meu divino, Joaquim. Pra mim, o santo e para tantos outros, um garçom. Faço agora e publicamente uma reverência ao seu polegar de ouro. Foi ao seu sinal de  positivo que rompemos as barreiras limítrofes entre nós dois. Nos perdemos nos contornos do nosso corpo e nos rastros de nossa pele.

Não sou nenhum Caio Fernando de Abreu que diz que uma vida só é vida quando for envolvida na vida de outra vida. E tampouco sensível como Clarice, que aprofunda em nossas almas com não te curto, pois curto é muito curto, então te longo. Na verdade, ao tentar traduzir o que sinto, olhando nos seus olhos, vejo que eu sou você. Longe da habilidade de Drummond, tropeçamos nas vírgulas assim como fazem os imperfeitos. Somos cheios de jeitos e de tatos. Vivemos em fatos, entre flatos e muitos abraços. Mas nos superamos mesmo é no beijo matinal. E depois dizem que intimidade destrói qualquer relação. Estamos aqui para provar que não.

É por isso, meu morango, que compartilho agora com essas testemunhas um pouco da nossa intimidade e da história de nossas vidas. Afinal de contas, as pessoas que aqui estão fazem parte do que nós somos e do que seremos enquanto moradores de uma república aberta 24 horas, do que seremos enquanto indivíduos e especialmente do que somos e seremos como um casal. Para finalizar os votos mais sinceros que já fiz, digo que para viver com você...
eu libertaria as mil inquietações que tenho em mim. São grandes. São tortas. São belas e são tristes. Ouso murmurar, mas quando chegas o todo se cala. A luz tênue que revela as nuances do que vivemos faz imperar na minha vida o afeto e acima de tudo o silêncio.

E mesmo calado, amo-te.
Renato Cirino para Lorena Cintra


Link para o discurso (vídeo):