terça-feira, 6 de novembro de 2007

Palavras bonitas, beijos e abraços

(escrito em 29/10/06)

O dia estava calmo. A cidade parecia mais tranquila que o normal. Os pássaros faziam sinfonia juntamente com o barulho do vento nas flores das árvores e jardins. A primavera transformara o cinza do inverno no colorido mais alegre do mundo. E naquele dia, suas carícias pintaram em meu coração mais do que as sete cores do arco-íris.

O primeiro contato foi o sorriso. Primeiro seus lindos olhos sorriram para mim, como se uma lagoa com águas brilhantes e límpidas mirassem a lua. E depois timidamente suas mãos correram entre meus braços tentando alcançar os meus ombros, depois meu pescoço. O desconhecido agora era mais íntimo do que qualquer coisa. Como era mágica essa tal de primavera...

A beleza do que realmente era belo embriagava meus sonhos. Assim como a mágica faz parte de tradições ilusionistas. Talvez imaginei as coisas de uma forma bem diferente de como elas aconteciam. Será que o toque era verdadeiro? O cheiro, a pele? No momento poderia ser uma ilusão, mas prefiro acreditar que eram de verdade. Mesmo assim não deixei de pensar, e de sonhar.

Eu adorava admira-la a dormir. Sua aparência verdadeiramente revelada era igual a das flores que embelezavam o jardim do meu coração. Vivemos e crescemos juntos, cada dia mais próximos. No amor o baile de nossas almas justificavam o espetáculo. O ato de se fundir num só corpo, mente e alma reescrevia o que já havíamos vivido e o que viveríamos. Aliás, não viveríamos mais...

Saudade, palavra exclusiva da língua portuguesa, define bem o que senti depois que tudo mudou. As pontinhas do seus dedos corriam pelos meus braços. As cócegas me faziam rir, me faziam bem. Um ar de nostalgia invade o ambiente quando penso nisso. O que resta agora é o sentimento, a imaginação! E eu ainda continuo com a mesma dúvida.. será que o que aconteceu foi de verdade? Acredito que a qualquer momento posso acordar, com o meu suor escorrendo pelos olhos... e pensando... "o que aconteceu?".

Sim, sinto falta das palavras bonitas, dos beijos e abraços. Do olhar silencioso, do sorriso largo. Do toque e das discussões... será que foi verdade?

Marcadores: , , , , , , , , , ,

Favoritos: Adicionar Blog ao Delicious Adicionar Blog ao Digg Adicionar Blog ao Technorati Adicionar Blog ao Delicious Adicionar Blog ao Delicious

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O dia em que o dente boiou (escrito em 12/01/2005)

Ela era tão linda! Desde o dia em que a vi pela primeira vez nunca mais a esqueci. Era azul, com um banco amarelo. Amarelo ouro, que também formava a espuminha do guidon! Era uma cross... na verdade todos chamávamos de "croisinha".

Meu avô a trouxe embrulhada e assim eu devorava as folhas de papel-presente com fome de curiosidade para poder tocá-la! Ahhh... como meus dia tornaram-se mais divertidos. Brincava de tudo e ainda por cima adorava dar carona para as pessoas, de certa forma a bicicleta tinha me ajudado a ser uma pessoa mais altruísta.

Sempre adorei aventuras e agora estava completo. Minha companheira estava lá, sempre sedenta de velocidade e adrelina. E foi numa dessas "investidas" que meu sorriso mudou para sempre.

O dia começou especial. Acordei e ao olhar a janela vi o nascer do sol... logo logo eu estava nas ruas, descendo uma ladeira conhecida como "descida da morte" pelas crianças. O vento roçava em meu rosto e meus cabelos pela primeira vez balançavam com vontade. Meus olhos se enchiam de lagrimas. Elas percorriam suavemente as maçãs de minha face, e ao fim caiam no infinito e se esfacelavam no ar!

O atrito do pneu emanava um som prazeroso, principalmente ao cortar o asfalto com curvas perigosas e rente ao solo! E eram muitas curvas... a luz dos raios reluziam nos muros das casas... conjunto perfeito, velocidade, emoção e beleza... mas nem tudo foi feliz naquele dia.

La estava ele, estático. Marcelo, com sua grande bicicleta... uma bicicleta de adultos... Uma barra circular para ser mais exato. Comparando, brincávamos que ela era o ônibus, enquanto as outras não passavam de carros ou motos... De certa forma "o monstro" me atraiu... e numa jogada do destino se fez completo o meu desejo.

-Vamos trocar de bicicletas por um instante?! Diz Marcelo.

Respondi positivamente. E assim trocamos os itens que mais adorávamos. E ao se apossar da bicicleta meus olhos se encheram de presunção... era uma situação que me sentia no poder... Não sabia que faria uma viagem que iria ser única em minha vida!

Comecei a descer a ladeira. O vento parecia mais pesado que o normal. As luzes não reluziam mais da mesma forma, mas mesmo assim eu queria descer, insistia em algo que não entendia o porquê, eu só queria poder. Corri como nunca antes... as curvas estavam mais perigosas, diferentes, horrorizantes... o momento se aproximava.

A curva mais difícil se aproximava. Nós a chamávamos de curva "Tamburelo" , aquela em que morreu o nosso grande herói Ayrton Senna. Me aproximava cada vez mais rápido. A bicicleta tomou vida própria... a criatura se revoltou contra o criador... a primeira idéia que veio a minha cabeça era apertar os freios, que ironicamente, numa cena cinematográfica, não funcionaram. Tentava controla-la, mas o seus sórdidos desejos eram mais fortes que o meu, e num pequeno gesto de desistência me entreguei ao acaso, ao meu destino.

O choque foi certeiro e os longos pneus bruscamente se encontraram com a calçada. Num gesto brusco e rápido o guidon me deu um cruzado de direita. Meu rosto virou-se de repente. Um liquido avermelhado saiu da minha boca e escorreu pela face onde antes escorriam lágrimas. Foi tudo rápido e indolor.

Após o choque voei. De certa forma realizei um desejo. Sempre me perguntavam que poderes eu gostaria de ter, sempre quis voar. Esse momento de prazer foi interrompido justamente na hora que me choquei com a calçada, cimentada... a sorte que rolei por cima da grama e os danos não foram tão grandes. Foi incrível! Meus amigos se aproximavam fazendo barulhos de sirene... gritavam, "olha o ayrton, olha o ayrton" e todos foram me socorrer.

Levantei-me e fui para casa. Calado. Meu rosto doía, ele estava ralado... a primeira coisa que fiz foi olhar no espelho... e a primeira coisa que reparei era que faltava uma coisa... Olhei espantado e disse: Caramba, cadê meu dente?!

Tentamos de tudo, inclusive jogar água na grama para ver se o dente boiáva, o que não iria acontecer nunca. Hoje pago pela falta do dente, mas penso que a beleza das pessoas e seus atrativos estão nas suas imperfeições, naquilo que os transforma em distintos.

Não sou muito diferente de milhares de brasileiros, que não possuem dentes, mas o meu "buraquinho" pelo menos é charmoso!

O engraçado é que depois desse dia passei a sorrir sempre... cada vez mais feliz!

Marcadores: , , , , , , , ,

Favoritos: Adicionar Blog ao Delicious Adicionar Blog ao Digg Adicionar Blog ao Technorati Adicionar Blog ao Delicious Adicionar Blog ao Delicious